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RELAÇÃO ÁGUA E CIDADE

February 17, 2020

 

Há uma semana, exatamente, as manchetes noticiadas eram; ”Rios e córregos transbordam em São Paulo com chuva”, “São Paulo em estado de atenção por causa da chuva”, "Chuva provoca caos em São Paulo”, e por ai em diante, manchetes estas que há alguns meses, ou até dias, era possível apenas mudar o nome da cidade para Rio de Janeiro ou Belo Horizonte.

 

Se eu fosse a chuva estaria extremamente chateada por levar a culpa dessa forma tão unanime e apontadora, sem direito à defesa, pois, será mesmo que a chuva foi a grande vilã responsável pelas enchentes, pelo caos, transbordamentos e, tristemente, até mortes? 

 

Eu, como não gosto de injustiças, resolvi advogar pela Chuva, escolhendo o post de hoje para elucubrar sobre a relação ÁGUA e CIDADE, a qual não tem sido das mais fáceis, ou seja, como tratamos nossas águas, rios e córregos por onde elas fluem, afinal, água é 70% do nosso corpo humana e dos outros animais, 90% no reino vegetal, 2/3 do planeta terra, e sem ela não haveria vida! Portanto, por qual motivo a afastamos, ignoramos e desprezamos, quais as consequências que estamos enfrentando e cada vez enfrentaremos mais?! 

 

Para iniciar, vale falar do CICLO DA ÁGUA, talvez já tenha ouvido sobre, mas o grande motivo de destacá-lo aqui é que ele nos mostra o quanto a água é FINITA, a mesma quantia de água que tinha quando o primeiro ser humano surgiu na Terra é o que temos hoje, claro que não na mesmas condições, pois, uma grande parcela hoje encontra-se contaminada, mas em  quantidade é a mesma, sem tirar nem por.

 

Aprendemos na escola que a água pode-se encontrar em 3 estados físicos diferentes; líquida, como mais a caracterizamos, vapor e sólida, e que ela se transforma passando de um estado para outro incansavelmente, a chuva é um ótimo exemplo disso, partículas de água no estado líquido que tornam-se vapor e depois condensam novamente formando as chuvas, e assim por diante.

 

A água transita entre o Meio e os corpos dos Seres Vivos, dependendo da energia do Sol para evaporação, do movimento da Terra e da gravidade. Quando em estado gasoso, a água sobe para camada mais alta da atmosfera e, devido as baixas temperaturas, condensa se transformando novamente no estado líquido, e todas essas gotículas juntas formam as nuvens, no caso de lugares muito frios, elas solidificam e formam a neve, quando não, torna-se chuva.

 

Esta chuva é responsável por levar de volta a água para superfície terrestre pela gravidade, caindo pelas mais diversas superfícies; de rios, mares, lagos, folhas das plantas, solos, asfaltos, concreto .. . e para cada uma tomará rumos diferentes, mas que depois, de alguma forma e em algum momento, voltará a atingir a atmosfera novamente.

 

A água que é absorvida pelo solo é levada aos lençóis freáticos, como uma verdadeira caixa d’água, que abastece as raizes das plantas e as nascentes dos rios. Esse ponto do ciclo da água é o menos visível, não só por que acontece debaixo da terra, mas também por que é esquecido e negligenciado, principalmente por que cada vez mais os solos estão se transformando em coberturas impermeáveis, ou até solos pobres e compactados, que impedem que a água tome seu rumo correto. Pouca água vai para debaixo da terra, sendo ainda mais desperdiçada, uma vez que é contaminada, tornando a nossa disponibilidade por água doce e potável cada vez menor.

 

E ai chegamos no primeiro ponto que esbarra na relação da água com as cidades. Vivemos em cidade impermeáveis, onde a água não tem muita escolha, a não ser correr e escorrer pelas superfícies que lhes destinam, uma hora o outra caindo em bocas de lobo, as quais essas, quando não entupidas  conduz a água para as redes de esgoto, se somando a maiores quantias de água poluída. O fato de não permitirmos que essa água infiltre no solo, diminui nossa quantidade de água disponível para consumo, ao mesmo tempo que aumentamos os riscos de enchentes e transbordamentos de rios e córregos.

 

Cidades como São Paulo onde áreas verdes e permeáveis, com o uso correto de espécies vegetativas que com suas raizes contribuem para essa infiltração e absorção importante por parte do Reino Vegetal, é ínfima, a maioria das casas, condomínios e comércios optam por concretar suas áreas externas, por manter suas lajes cinzas, por cortarem árvores e por não captarem a água da chuva através de cisternas, nos levando, enquanto cidade, a não contribuir para o uso consciente e respeitoso do bem vital que é a ÁGUA, além de mitigar acontecimentos como o da última semana em São Paulo.

 

Seguindo para outro ponto importante, lhe pergunto: O que as vias de São Paulo como Nove de Julho, Pacaembu, Bandeirantes, Roberto Marinho, João Jorge Saad, Eliseu de Almeida, Anhaia Mello, Inajar de Souza e Salim Farah Maluf têm em comum?

 

Talvez se eu te ajudar completando com os nomes de rios e córregos paulistanos como Saracura, Iguatemi, Traição, Água Espraiada, Antonico, Pirajussara, Mooca, Tatuapé, Cabuçu de Baixo e Verde, possa te fazer mais sentido.

 

Esses rios e córregos, afluentes do Rio Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, ainda existem mesmo que em situação triste de descaso, estes foram canalizados e escondidos embaixo das vias mencionadas. São Paulo é uma cidade que esconde seus rios e córregos, os enxergam como local pura e simplesmente de despejo de esgoto.

 

Na história de São Paulo, os rios e suas águas têm forte presença, seja ela forma positiva ou negativa. Esta cidade nasceu as margens do Rio Tamamduateí, hoje esquecido ali na região central, entre avenidas e comércio. Esse mesmo rio que era provedor de alimentos e água para os primeiros habitantes da Vila de São Paulo de Piratininga, a partir do início do século XIX passou a ser visto como obstáculo ao progresso, assim como mais pra frente os rios Tietê e Pinheiros.

 

Em 1978 foi fundado o primeiro sistema de abastecimento de água em São Paulo, o chamado sistema Cantareira. A população crescia e com ela o consumo de água e o descarte de esgoto também. A solução na época foi destinar esses resíduos para os rios, os transformando completamente, afundando seus leitos e os retificando, iniciando, propositadamente, o exercício de distanciamento e falta de pertencimento das pessoas para os com seus rios.

 

E não pararam por ai, a vontade de domesticar os rios e os muitos córregos da cidades, ao todo são 1500 km espalhados por toda São Paulo, levou a suas canalizações e, consequentemente, a sua contaminação pelo despejo direto do esgoto sem tratamento.

 

Eles foram canalizados, espremidos e escondidos, porém, continuam a existir e a fazer a sua mínima função de escoar água, e quando chove,  a água em maior quantidade segue seu rumo natural para estes, os quais esperam que suas margens (várzeas) sejam permeáveis e repletas de flora que contribuam para que parte dessa água seja retida. Entretanto, a realidade é outra, sem suas curvas a água corre mais rápido, sem suas várzeas, a água transborda e o que vemos é o fenómeno de enchente, a qual, é pura e simplesmente produto da urbanização violenta que ocupou o lugar dos rios, como bem colocado pela geógrafa e professora da USP, Odete Seabra.

 

São Paulo, assim como outras cidades, tem seus rios doentes e/ou enterrados, esquecidos, os quais só são lembrados quando vivenciamos as situações de caos que dizemos ser culpa da grande quantidade de chuva que caiu. Sim, vale dizer que a quantidade foi grande, mas isso não deveria ser o problema, problema é sim o fato de como lidamos com a água em nossas cidades, e que cada vez será mais frequente fenômenos assim devido às Mudanças Climáticas, as quais aqui não irei mais a fundo, mas não poderia deixar de mencioná-la.

 

A falta de planejamento urbano do passado, presente e futuro, o crescimento desordenado e o pensamento de domesticação da natureza, seja através de rios e córregos canalizados e de áreas insignificantes destinadas à vegetação , que são os reais causadores do caos, não o fenômeno natural e vital da chuva.

 

Não vemos a água em São Paulo, não pensamos em nossos rios, não interagimos com eles, apenas em momentos de caos e destruição. Esquecemos que a água é presente em nossas vidas diariamente, seja na forma que for, e o quão importante é para nossa sobrevivência, por que então, também não levamos em consideração os recursos hídricos e a sua verdadeira importância quando pensamos nossas cidades !?

 

 

 

 

 

 

 

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