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Arquitetura e paisagem: uma relação que começa no projeto.

Cecília Mesquita
23 de set.
2 min de leitura

Atualizado: 24 de set.



É comum que o paisagismo entre no projeto quando a arquitetura já está praticamente definida. Mas, em uma casa, arquitetura e paisagismo podem e, na minha visão, deveriam ser pensados juntos desde o início. Não porque um precise substituir o outro, mas porque existe uma relação muito mais profunda entre os dois do que simplesmente separar o que está dentro e o que está fora.


Arquitetura e paisagismo compartilham uma mesma matéria-prima: o espaço. A posição de uma árvore pode definir uma vista ou mesmo um ambiente de permanência ou circulação. O porte e a disposição de uma ou mais árvores podem interferir na incidência do sol e no comportamento dos ventos que atingem determinada face da casa. A vegetação pode criar privacidade, sombra ou enquadrar um ambiente. Um caminho pode conduzir o olhar e o movimento. A escolha de uma espécie, considerando seu porte ao longo dos anos, pode transformar a relação entre a casa, o céu e os espaços externos.


São decisões que começam no projeto, muito antes de o jardim existir. Por isso, o paisagismo participa da própria experiência espacial e sensorial da arquitetura. E essa experiência não acontece apenas pelo que vemos. A luz filtrada pelas folhas, o som do vento, a temperatura de uma área sombreada, o cheiro de uma espécie escolhida para aquele lugar... tudo isso também constrói a maneira como percebemos e vivemos um espaço.


Não por acaso, estudos relacionados à biofilia e à psicologia ambiental têm mostrado como a presença da natureza pode contribuir para o bem-estar, a atenção e a recuperação do estresse. Em uma casa, isso ganha uma dimensão ainda mais interessante: a paisagem deixa de ser apenas algo que contemplamos e passa a fazer parte da experiência cotidiana.


Pensar antes para integrar melhor


Existe também uma questão muito prática. Quando arquitetura e paisagismo são desenvolvidos em conjunto, é possível prever desde cedo elementos como irrigação, drenagem, iluminação externa, pontos de água, áreas permeáveis, contenções e condições adequadas para o desenvolvimento das plantas. Isso permite que essas soluções façam parte do projeto, em vez de serem incorporadas depois, muitas vezes de maneira improvisada.


E é justamente aí que sustentabilidade deixa de ser apenas uma escolha de materiais ou uma preocupação isolada. Preservar uma árvore existente, escolher espécies adaptadas ao clima e ao território, favorecer a biodiversidade, ampliar áreas permeáveis e pensar melhor o uso da água são decisões que podem fazer parte da própria concepção da casa.


No fim, pensar arquitetura e paisagismo juntos é pensar a casa para além de seus limites construídos. É entender que a paisagem não está apenas ao redor da arquitetura. Ela participa dela, da forma como a casa se relaciona com o lugar, daquilo que vemos e sentimos e, principalmente, da maneira como vivemos esse espaço ao longo do tempo.


E talvez seja justamente aí que arquitetura e natureza encontrem sua relação mais interessante: quando uma não aparece simplesmente depois da outra, mas quando as duas ajudam a construir, juntas, a experiência de morar.



Cecília Mesquita

Arquiteta e fundadora do escritório Cecília Mesquita Arquitetura, especializado em projetos residenciais contemporâneos que aliam estética, sustentabilidade e qualidade de vida.

Instagram: @ceciliamesquita_arquitetura l Site:www.ceciliamesquita.com


 
 
 

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