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Super El Niño: o desafio não é o fenômeno climático, mas a forma como projetamos nossas cidades e territórios

  • Foto do escritor: Elis Cristina
    Elis Cristina
  • 1 de jul.
  • 5 min de leitura

Nos últimos meses, o termo Super El Niño voltou a ocupar espaço nas manchetes e nas discussões sobre mudanças climáticas. Ondas de calor recordes, enchentes, secas prolongadas e incêndios florestais passaram a ser frequentemente associados ao fenômeno, gerando uma sensação de que estamos diante de um evento imprevisível e impossível de controlar.


Na realidade, o El Niño é um fenômeno climático natural. Ele ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial apresentam um aquecimento acima da média, alterando a circulação atmosférica e influenciando o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta. Quando esse aquecimento é excepcionalmente intenso, utiliza-se a expressão Super El Niño, indicando um evento capaz de potencializar seus efeitos sobre o clima global.


No Brasil, esses impactos não acontecem de forma uniforme. Enquanto algumas regiões enfrentam chuvas muito acima da média e aumento do risco de enchentes, outras convivem com estiagens prolongadas, escassez hídrica e temperaturas extremas.


O ponto mais importante, porém, não está no fenômeno em si. O que torna um Super El Niño tão preocupante é o contexto em que ele acontece. Hoje vivemos em um planeta mais quente, resultado das mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas. Ao mesmo tempo, construímos cidades que perderam grande parte de sua capacidade natural de responder aos eventos extremos.


Ao impermeabilizar o solo, canalizar rios, eliminar áreas úmidas e substituir vegetação por concreto, reduzimos justamente os mecanismos naturais que ajudavam a regular temperatura, absorver água e manter o equilíbrio ecológico.


Por isso, quando uma chuva intensa provoca enchentes ou uma onda de calor transforma determinados bairros em verdadeiras ilhas térmicas, não estamos observando apenas os efeitos do clima. Estamos vendo as consequências de décadas de planejamento urbano que tratou a natureza como um obstáculo ao desenvolvimento, e não como parte essencial da infraestrutura das cidades.


Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes no debate climático atual. Durante muito tempo, a discussão esteve concentrada em como reduzir emissões de carbono. Esse esforço continua sendo indispensável, mas já não é suficiente. Os eventos extremos deixaram de ser projeções futuras e passaram a fazer parte da realidade de cidades e empreendimentos.


A pergunta, portanto, deixa de ser se seremos afetados pelas mudanças climáticas. A pergunta passa a ser: o quanto estamos preparados para conviver com elas?


Nos últimos anos, um conceito vem ganhando espaço entre urbanistas, arquitetos, paisagistas e especialistas em adaptação climática: o de que a natureza deve voltar a ser compreendida como infraestrutura.


Essa mudança de perspectiva altera profundamente a forma de projetar cidades e empreendimentos. Tradicionalmente, áreas verdes foram incorporadas aos projetos como elementos de lazer ou valorização estética. Árvores, jardins e parques eram vistos como complementos da arquitetura.


Hoje sabemos que eles desempenham funções muito mais complexas. Uma árvore não oferece apenas sombra. Ela reduz a temperatura do ar por meio da evapotranspiração, intercepta parte da água da chuva antes que ela atinja o solo, contribui para a infiltração da água, melhora a qualidade do ar e cria habitat para inúmeras espécies.


Da mesma forma, um solo permeável não representa apenas uma escolha paisagística. Ele funciona como um reservatório natural capaz de armazenar parte da água das chuvas intensas, reduzindo o volume que escoa para galerias pluviais e diminuindo o risco de alagamentos. Quando essas funções ecológicas passam a orientar o planejamento dos espaços, a paisagem deixa de ser decoração, e passa a atuar como infraestrutura climática.


Poucos projetos representam essa mudança de paradigma de forma tão clara quanto o Bishan–Ang Mo Kio Park, em Singapura. Até o início dos anos 2000, o rio Kallang atravessava a região dentro de um canal de concreto, construído para acelerar o escoamento das águas pluviais. Era uma solução típica da engenharia do século passado, baseada na ideia de controlar completamente o comportamento da água.


O problema é que controlar nem sempre significa resolver, com o crescimento urbano e o aumento dos eventos extremos, tornou-se evidente que o canal não respondia aos desafios ambientais e ainda criava uma barreira física entre a cidade e o rio.


A transformação veio quando o curso d'água foi renaturalizado e integrado a um parque de aproximadamente 62 hectares. Em vez de manter a água confinada, o projeto devolveu espaço para que ela pudesse ocupar áreas específicas durante períodos de chuva intensa. Em momentos de cheia, determinadas áreas do parque são temporariamente inundadas, reduzindo a velocidade do escoamento e diminuindo o risco de enchentes em regiões próximas. Quando o volume de água retorna ao normal, esses mesmos espaços voltam a ser utilizados para lazer, esportes e convivência.


Mas os resultados vão muito além da drenagem. A recuperação do rio ampliou significativamente a biodiversidade local, reduziu temperaturas, melhorou a qualidade ambiental e transformou um espaço antes dominado por concreto em um dos parques urbanos mais reconhecidos internacionalmente.


O mais interessante é que nenhuma dessas funções acontece de forma isolada, pois, ao mesmo tempo em que o parque reduz riscos climáticos, ele melhora a experiência das pessoas, valoriza o entorno e fortalece a relação da população com a natureza. Essa é a essência das Soluções Baseadas na Natureza: utilizar processos ecológicos para resolver problemas que tradicionalmente seriam enfrentados apenas com infraestrutura cinza.


Embora exemplos assim possam parecer distantes da realidade brasileira, seus princípios são perfeitamente aplicáveis aos nossos territórios. Hotéis, resorts, condomínios, indústrias e empreendimentos corporativos convivem cada vez mais com temperaturas elevadas, chuvas concentradas e períodos de seca. Essas condições afetam diretamente o conforto das pessoas, os custos operacionais e a própria segurança dos espaços.


Planejar áreas externas a partir da lógica da adaptação climática significa criar ambientes capazes de responder melhor a esses desafios. Uma cobertura vegetal adequada reduz ilhas de calor e melhora o conforto térmico. Solos permeáveis e sistemas de drenagem sustentável aumentam a infiltração da água e reduzem o risco de alagamentos. A utilização de espécies adaptadas ao bioma local fortalece a biodiversidade e aumenta a resiliência da paisagem frente aos extremos climáticos.


Importante destacar que nenhuma dessas soluções elimina um Super El Niño, mas todas elas reduzem a vulnerabilidade dos territórios diante de seus impactos, e é essa diferença que é fundamental. Enquanto não podemos controlar os fenômenos climáticos, podemos controlar a forma como projetamos nossos espaços.


Durante muito tempo, o sucesso de um empreendimento foi medido pela eficiência de suas edificações. Nos próximos anos, essa avaliação será cada vez mais influenciada pela capacidade dos espaços externos de responder aos desafios climáticos.


A paisagem deixa de ser apenas um elemento de contemplação para assumir um papel estratégico na proteção das pessoas, da biodiversidade e da própria operação dos empreendimentos.


Na Soul Verde, acreditamos que essa é a realidade da arquitetura paisagística. Projetamos áreas externas como sistemas vivos, capazes de regular temperatura, infiltrar água, recuperar biodiversidade e gerar resiliência climática. Porque, diante de fenômenos como o Super El Niño, a pergunta mais importante não é quando ocorrerá o próximo evento extremo, mas sim se estaremos preparados para enfrentá-lo.



 
 
 

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