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Condomínios também fazem parte da solução climática: reflexões a partir da São Paulo Climate Week 2026

  • Foto do escritor: Elis Cristina
    Elis Cristina
  • 12 de ago.
  • 5 min de leitura

São Paulo Palestra Climate Week 2026
São Paulo Palestra Climate Week 2026

No dia 3 de agosto, participei da São Paulo Climate Week 2026, no evento Condomínios na Pauta Climática, realizado no CondoHub, em São Paulo. O encontro reuniu síndicos, gestores, empresas e profissionais de diferentes áreas para discutir um tema que tende a ganhar cada vez mais relevância: qual é o papel dos condomínios diante das mudanças climáticas?


Minha participação aconteceu com a palestra “Paisagismo como Solução Climática”, na qual propus olhar para uma dimensão dos empreendimentos condominiais que ainda ocupa pouco espaço nessa discussão: a paisagem.


Quando falamos em sustentabilidade nos edifícios, alguns temas aparecem quase imediatamente. Eficiência energética, geração de energia renovável, gestão de resíduos, consumo de água e, mais recentemente, emissões de carbono já fazem parte do repertório de muitos empreendimentos. São questões fundamentais, mas existe outra infraestrutura presente praticamente em todos eles e cujo potencial ambiental ainda é frequentemente subestimado: suas áreas externas.


Jardins, áreas de circulação, estacionamentos, recuos, coberturas, áreas de lazer e superfícies pavimentadas interferem diretamente na forma como a água circula, na quantidade de calor acumulada, na biodiversidade existente, na qualidade do solo e no conforto das pessoas. Portanto, a pergunta que conduziu parte da minha apresentação foi relativamente simples: essas áreas apenas ocupam espaço ou estão trabalhando em favor do empreendimento e da cidade?


Durante décadas, grande parte do paisagismo associado aos empreendimentos urbanos foi concebida principalmente a partir de critérios estéticos. Escolhemos espécies, desenhamos canteiros, implantamos gramados e organizamos espaços de permanência.


A dimensão ambiental existe, evidentemente, mas muitas vezes aparece como consequência da presença da vegetação, e não como um objetivo mensurável do projeto.O desafio climático exige uma inversão desse raciocínio. Em vez de começar perguntando quais plantas serão utilizadas, podemos começar perguntando: qual problema esse espaço precisa ajudar a resolver?


Na palestra, apresentei esse raciocínio por meio de uma sequência que utilizamos no desenvolvimento de paisagens regenerativas:

Problema → Sistema comprometido → Função ecológica → Estratégia → Espécies e materiais

A diferença parece sutil, mas é estrutural.


Uma espécie vegetal deixa de ser escolhida apenas porque possui determinada forma, cor ou floração. Ela passa a integrar uma estratégia para gerar sombra, favorecer polinizadores, estabilizar o solo, aumentar a evapotranspiração ou reduzir a necessidade de irrigação.


Da mesma forma, um jardim de chuva não deve ser instalado simplesmente porque se tornou uma solução associada à sustentabilidade. Sua adoção faz sentido quando existe um problema relacionado à gestão das águas pluviais e quando as condições daquele lugar permitem que ele cumpra adequadamente essa função. É essa relação entre problema, função e desempenho que diferencia uma paisagem simplesmente vegetada de uma paisagem pensada como infraestrutura.


Os limites administrativos de um condomínio não correspondem aos limites dos sistemas ambientais. A chuva que cai dentro de um empreendimento entra em um sistema de drenagem compartilhado pela cidade. O calor acumulado por suas superfícies contribui para o microclima urbano. As árvores existentes participam de uma rede de cobertura vegetal. A fauna atravessa diferentes propriedades em busca de abrigo e alimento.


Isso significa que decisões tomadas dentro de propriedades privadas produzem efeitos que ultrapassam seus muros. Um único condomínio dificilmente resolverá um problema urbano de inundação ou de ilha de calor. Seria tecnicamente incorreto atribuir essa capacidade a uma intervenção isolada. Mas milhares de propriedades capazes de reter parte da chuva onde ela cai, aumentar a permeabilidade do solo, ampliar o sombreamento e criar continuidade de vegetação podem constituir uma infraestrutura natural distribuída pela cidade.


É justamente aí que está uma das questões mais relevantes para a adaptação climática urbana.Historicamente, esperamos que boa parte da resposta aos problemas ambientais das cidades venha de grandes obras e investimentos públicos. Eles continuam indispensáveis. Entretanto, diante da escala e da velocidade das transformações climáticas, também precisamos discutir o desempenho ambiental da enorme quantidade de espaços privados que compõem o tecido urbano, e os condomínios estão entre esses espaços.


Outro ponto que procurei enfatizar durante a apresentação é que paisagismo climático não corresponde à implantação de um catálogo de soluções consideradas sustentáveis.

Jardins de chuva, biovaletas, pavimentos permeáveis, arborização estratégica, recuperação da saúde do solo e vegetação em diferentes estratos são algumas das estratégias que podem contribuir para a adaptação climática. Mas nenhuma delas é universal.


Um condomínio pode ter um problema prioritariamente hídrico. Outro pode apresentar pouca cobertura arbórea e grande exposição solar. Um terceiro pode possuir jardins extensos, mas solo extremamente compactado e alto consumo de água para irrigação. por isso, o diagnóstico precisa anteceder a solução.


Essa também é uma questão econômica. Sustentabilidade não deveria significar acrescentar tecnologias, equipamentos ou elementos ao empreendimento indiscriminadamente. Em muitos casos, o caminho mais eficiente pode estar justamente em compreender melhor os processos naturais existentes e trabalhar a favor deles.


A mitigação busca atuar sobre as causas das mudanças climáticas, principalmente reduzindo emissões ou aumentando a remoção de gases de efeito estufa da atmosfera. A vegetação pode contribuir para o sequestro e armazenamento de carbono, enquanto decisões de projeto e manutenção também podem reduzir emissões associadas à implantação e operação da paisagem.


A adaptação, por sua vez, procura reduzir nossa vulnerabilidade aos impactos de um clima que já está mudando. É nesse campo que muitas estratégias paisagísticas apresentam um potencial particularmente relevante para os condomínios. Aumentar a capacidade de infiltração e retenção da água, proporcionar sombreamento, reduzir temperaturas superficiais, melhorar o microclima e desenvolver sistemas vegetais mais resilientes são formas de preparar os espaços para condições climáticas mais extremas.


Na prática, uma mesma intervenção pode contribuir para as duas agendas. Mas compreender essa diferença é importante para não reduzir toda ação ambiental ao argumento genérico de que determinada solução é “sustentável”.


Eventos como a São Paulo Climate Week têm importância justamente porque mudanças dessa natureza não acontecem dentro de uma única profissão. Adaptação climática exige diálogo entre arquitetura, engenharia, paisagismo, gestão, poder público, mercado imobiliário, administração condominial, ciência e sociedade.


Para quem trabalha com paisagem, participar desses espaços também significa levar o tema para além dos círculos tradicionais do paisagismo. Esse é um dos objetivos que tenho buscado com a Soul Verde: difundir a compreensão do paisagismo como uma ferramenta concreta de adaptação e mitigação das mudanças climáticas.


Não porque o paisagismo vá resolver sozinho a crise climática. Não vai. Mas porque água, solo, vegetação, biodiversidade, microclima e pessoas fazem parte dos sistemas que precisam ser considerados quando pensamos em cidades mais resilientes. E todos esses elementos estão diretamente relacionados à forma como projetamos e gerimos nossas paisagens.


Quanto mais essa discussão estiver presente entre síndicos, gestores, incorporadores, arquitetos, engenheiros, empresas e tomadores de decisão, maior será a possibilidade de transformar áreas hoje tratadas apenas como espaços residuais, ornamentais ou custos de manutenção em componentes ativos da infraestrutura climática das cidades.


Essa é também a lógica que orienta a Metodologia Soul Verde® – Paisagismo Climático: compreender o lugar, identificar seus sistemas e vulnerabilidades, estabelecer funções e indicadores e, somente então, definir as estratégias de projeto capazes de gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos.


A participação na São Paulo Climate Week 2026 reforçou uma convicção que está na origem desse trabalho: precisamos ampliar o significado da palavra paisagismo.


A paisagem continuará tendo beleza, identidade e experiência como atributos fundamentais, entretanto, diante dos desafios que já enfrentamos, precisamos exigir mais dela. Toda área externa ocupa um espaço. A questão é se ela apenas ocupa esse espaço ou se trabalha, diariamente, em favor das pessoas, dos empreendimentos e da cidade.


 
 
 

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