Jardins naturalistas e biodiversidade urbana: perspectivas latino-americanas
- Elis Cristina

- há 3 dias
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Entre os dias 25 e 27 de fevereiro de 2026, tive a oportunidade de participar da Escola de Verão AUGM – Paisagem e Biodiversidade: Jardins Naturalistas na América Latina, realizada na Universidade de Brasília (UnB). O encontro reuniu pesquisadores, paisagistas e profissionais de diferentes países para discutir um tema cada vez mais central para as cidades contemporâneas: o papel do paisagismo naturalista na construção de paisagens mais resilientes, biodiversas e adaptadas aos desafios climáticos.
O evento faz parte do programa de Escolas de Verão e Inverno da Asociación de Universidades Grupo Montevideo (AUGM), uma rede que integra universidades públicas da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. A iniciativa busca fortalecer a cooperação acadêmica regional e promover a troca de conhecimento entre pesquisadores e profissionais da América Latina.
Organizado pelos professores Julio Pastore, da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB, e Camila Gomes Sant’Anna, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em parceria com a Coordenação de Paisagismo da Prefeitura da universidade, o encontro trouxe um panorama amplo sobre as transformações que vêm acontecendo no campo do paisagismo na região.
Ao longo de três dias de programação intensa, o evento abordou experiências de projeto, pesquisa e gestão de áreas verdes em diferentes biomas da América Latina, evidenciando como o paisagismo naturalista vem se consolidando como uma abordagem relevante para cidades mais sustentáveis.
A programação foi estruturada em torno de três eixos principais:
Plantas nativas – destacando o papel fundamental da flora local na criação de paisagens mais adaptadas ao clima e aos ecossistemas regionais;
Composição naturalista – abordando estratégias de desenho inspiradas na dinâmica dos ecossistemas naturais, capazes de gerar paisagens mais complexas, biodiversas e resilientes;
Manejo sustentável – discutindo formas de gestão de áreas verdes que reduzam insumos, promovam regeneração ecológica e favoreçam o equilíbrio entre cidade e natureza.
Esses três pilares refletem uma mudança importante no campo do paisagismo: a transição de modelos predominantemente ornamentais para paisagens que funcionam como sistemas ecológicos vivos.
Um dos aspectos mais enriquecedores do encontro foi a troca entre profissionais de diferentes países latino americanos, que apresentaram projetos, pesquisas e experiências em contextos diversos da América Latina e também da Europa.
Entre os palestrantes convidados estavam nomes como Amália Robredo (Uruguai), Cristóbal Elgueta (Chile), Elisa Olivares (Reino Unido), Fernanda Rionda (México), Francisca Fernández (Chile), Javiera Delaunoy (Chile), Macarena Calvo (Chile), Nicolas Sanchez (Chile), J. Cruz García (México), Mariana Siqueira (Brasil), Julio Pastore (Brasil) e Rafael Dodera (Uruguai), entre outros profissionais que vêm contribuindo para o desenvolvimento do paisagismo naturalista na região.
As apresentações mostraram como cada território vem reinterpretando o paisagismo naturalista a partir de suas próprias condições climáticas, culturais e ecológicas. Do Cerrado brasileiro aos ecossistemas mediterrâneos do Chile ou aos ambientes urbanos do México, as soluções paisagísticas ganham identidade local e respondem a desafios ambientais específicos.
Essa diversidade evidencia que não existe um modelo único de paisagismo sustentável e regenerativo. Pelo contrário, a força do paisagismo naturalista na América Latina está justamente em sua capacidade de adaptação aos diferentes biomas e realidades sociais da região.
Além das palestras e mesas de debate, o evento também incluiu visitas técnicas que permitiram conhecer algumas iniciativas relevantes dentro do campus da Universidade de Brasília. Entre elas, destacam-se o viveiro-escola, a central de compostagem e alguns dos jardins desenvolvidos pela coordenação de paisagismo da universidade, incluindo o premiado Jardim de Sequeiro. Esses espaços demonstram como é possível desenvolver projetos paisagísticos que integram conservação de recursos, gestão ecológica e valorização da flora local.
Essas iniciativas reforçam o potencial das universidades como verdadeiros laboratórios vivos para experimentação e inovação em paisagismo ecológico.
Uma das reflexões recorrentes ao longo do evento foi a necessidade de repensar o papel do paisagismo nas cidades contemporâneas. Em um contexto marcado por mudanças climáticas, perda de biodiversidade e crescente impermeabilização do solo urbano, as áreas verdes precisam ser compreendidas como infraestrutura ecológica essencial.
Quando planejadas com base em princípios ecológicos, as paisagens urbanas podem contribuir para:
aumentar a biodiversidade nas cidades;
melhorar o microclima urbano;
favorecer a infiltração da água da chuva;
reduzir ilhas de calor;
fortalecer a relação entre sociedade e natureza.
Nesse sentido, o paisagismo deixa de ser apenas um elemento estético e passa a atuar como parte estratégica das soluções urbanas para os desafios ambientais contemporâneos.
Participar de um encontro como esse é uma oportunidade valiosa para ampliar repertórios, trocar experiências e acompanhar as transformações que vêm acontecendo no campo do paisagismo na América Latina.
Essas discussões dialogam diretamente com o trabalho que desenvolvemos na Soul Verde, onde buscamos criar paisagens regenerativas capazes de integrar biodiversidade, adaptação climática e soluções baseadas na natureza.
Ao olhar para o futuro das cidades, fica cada vez mais evidente que o paisagismo tem um papel fundamental na construção de territórios mais resilientes, equilibrados e ambientalmente responsáveis.
E essa transformação começa justamente pela forma como escolhemos planejar, projetar e manejar nossas paisagens.




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